tigre nu, rei devorado -
rimas e ruínas a reinar
num mar : linguagem.
tigre nu, rei devorado -
campânulas plantadas
na luz do nome.
tigre nu, rei devorado -
chicote sujo de arenga
limpo com chuva de lâminas.
tigre nu, rei devorado -
o medo será sêmen,
o sangue será verbo.
[Wanderson Lima]
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Fazenda
[H. Dobal]
São trinta cabeças
de gado cabrum.
Criação miúda
sem qualquer ciência.
Somente um chiqueiro
defesa noturna
que bem cedo aberto
o dia lhes dá.
Rústicas a vida
de qualquer maneira
sabem extrair.
Mas vem da morte
sua serventia
o couro e a carne para o homem
mais pobre do que elas.
[in O Tempo
Consequente, 1966]
domingo, 20 de novembro de 2011
Ruminações
[Donizete Galvão]
À maneira de Enrique Lihn
Nunca saí dessa roceira Minas
que nos dá aflição e dor como herança.
Lamaçal de bosta de vaca
no curral bem em frente da casa.
Cheiro de leite azedo nos latões
e de óleo queimado para expulsar bernes.
Jardins de dália e corações magoados,
chás de consolda e escaldados de quirera.
A avó socando o arroz no pilão,
preparando decoada para o sabão
ou com rodilhas para o feixe de lenha.
Compras sem um item supérfluo
anotadas nas cadernetas de armazém.
Terras tomadas por sapé e sorocaba
e vendias para pagar promissórias.
Vidas acanhadas atrás de janelas
na cidade que não definha nem prospera.
Rancores cultivados durante anos,
as mesquinharias de parentes.
Amor ressabiado, apenas sugerido,
abraços sem calor, corpos com arestas.
Podem dar-me asas, cheques de viagem,
mandar-me para velejar em Bizâncio.
Recolho, rumino e regurgito
a aspereza daqueles dias.
Rejeito sua rica hospedagem.
Sou um estranho em suas festas.
Nunca saí desse círculo de ferro.
Nunca saí dessa Minas que não termina.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Sou um homem de força, afirmo.
[Ranieri Ribas]
Onde ela me cresce desde um lugar baldio
Onde a povôo com o movimento dos corpos
E ela se encorpa como o tronco de uma árvore
Monumento pórtico
Em seu ofício de casa que conquista o teto com renovos e o abobada todo.
Por isso digo: sou um construtor de força.
E é como uma planta sáxea fincada ao chão
Uma planta arquitetada na idéia da projeção
E irriga as ruas.
Numero-a porque não tem nome
E ela precisa ser diariamente invocada.
Ela espera o chamado do mensageiro às palmas e ele vem.
Sobre os umbrais vem ele para adentrá-la
E deixa uma carta no chão.
- do livro ainda inédito AOS RENOVOS DA ERVA
Sou um homem de força, afirmo.
E por isso ergo esta casa a partir do soloOnde ela me cresce desde um lugar baldio
Onde a povôo com o movimento dos corpos
E ela se encorpa como o tronco de uma árvore
Monumento pórtico
Em seu ofício de casa que conquista o teto com renovos e o abobada todo.
Por isso digo: sou um construtor de força.
Ergo-a contra o sol com cinco janelas e um horizonte
Sinto-a em cada ângulo soerguer-se em meus ombrosE é como uma planta sáxea fincada ao chão
Uma planta arquitetada na idéia da projeção
Esta casa me é necessária
Ela deságua líquida na via públicaE irriga as ruas.
Numero-a porque não tem nome
E ela precisa ser diariamente invocada.
Ela espera o chamado do mensageiro às palmas e ele vem.
Sobre os umbrais vem ele para adentrá-la
E deixa uma carta no chão.
Esta casa me resguarda do turbilhão das ruas
E por isso a amo em cada ângulo de sua geometria obtusa.sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Eu acho engraçado o poeta da praça
[Dimas Batista]
Eu acho engraçado o poeta da praça
Que passa dois anos compondo um soneto
Com um ano de luta é que finda um
quarteto
E quando termina é ainda sem graça
Com tinta e papel o esboço ele traça
Contando nos dedos pra metrificar
Que noites de sono ele perde a pensar
A fim de fazer tão fraco produto
Que desses eu faço, dois, três num
minuto
Cantando galope na beira do mar
[Epígrafe do livro Sonetos de cantadores, Nonato Costa
e Zózimo Tavares (org). Teresina: Gráfica do Povo, 1996.]
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Soneto do corifeu
[Vinicius de Moraes]
São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.
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São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.
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Este poema apareceu pela primeira vez na peça Orfeu da Conceição. É a primeira fala, e quem a diz é o Corifeu. Daí, quando recolheu este texto no seu Livro de sonetos, Vinicius deu a ele o título "Soneto do Corifeu". Mais tarde, o poema foi musicado por Toquinho, e ganhou o título "São demais os perigos desta vida", que deu nome ao disco homônimo (1972) da dupla Vinicius e Toquinho.
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