quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

meus livros

[Jorge Luis Borges]

Meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes grises e de grises olhos
Que inutilmente busco nos cristais
E que com a mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Vão me dizer para sempre.


[A Rosa Profunda, 1975. In Poesia, tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p191]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O Prato

[Zila Mamede]

Na casa escura, o prato campinava
dimensão magra de conviva e pasto.
Se lume de candeia refletia,
naquela toalha, o barro inerte branco

uma dor de menino sacudia
as miragens de pão que o habitavam.
Liberta de função a branca rosa
desarvorada lua se fazia

nas cercas, no curral espantamento
em que o menino reinventa reino
onde aboiavam prados. Infiltrava-se

na mesa neutra e vã o medo infante:
os dedos cavalgados por fantasmas
serenamente despedaçam luas.

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In O Arado, 1959.





 
Pertence Zila Mamede àquela estirpe de poeta que não renega a tradição lírica, não foge da “forma”, ao tempo em que não se submete a ela, mas explora-a, transforma-a em instrumento e não em fim, tal como Carlos Drummond de Andrade (sobretudo em Claro Enigma), João Cabral de Melo Neto, Mário Faustino, Jorge de Lima (magistralmente em Invenção de Orfeu), Cecília Meireles e H. Dobal (A Província Deserta), dentre muitos outros, assim o fizeram. Os sete sonetos de O Arado, em um universo de 19 poemas, refletem menos o que é estruturalmente inerente a sua forma do que a dicção peculiar da poeta, e as sugestivas imagens que seus versos evocam. Publicado em 1959, no Rio de Janeiro, pela Livraria São José, O Arado constitui sua obra seminal, como bem caracterizou Hildeberto Barbosa Filho, em posfácio da reedição de O Arado, pela Editora da UFRN, em 2005: “No âmbito de sua poética individual, O Arado funciona como a obra canônica, na medida em que reflete, mais equilibradas e mais amadurecidas, as experiências do passado. O que vem depois confirma a qualidade de uma dicção lírica singular, mas não ultrapassa os ângulos de irradiação mais iluminados que vêm deste livro/chave.