quarta-feira, 27 de julho de 2011

para os salgueiros junto ao rio

844-869 d.C


Vultos em jade às margens devolutas
à névoa assombram pavilhões distantes
Reflexos deitam-se no rio do outono
e flores descem sobre os pescadores
Peixes ocultam-se ás raízes densas
enlaçam os ramos barcos visitantes
Respiração da noite, a chuva e o vento
ecoam tristes sonhos revolutos



[in Poesia Completa de Yu Xuanji, tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, Editora Unesp, 2011, pag 31]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

um poema de Salvatore Quasimodo

OBOÉ SUBMERSO


Avara pena, tarda teu dom
nesta minha hora
de suspirados abandonos.

Um oboé gélido ressilabeia
alegria de folhas perenes,
não minhas, e se desmemoria;

em mim anoitece:
a água transmonta
sobre minhas mãos relvosas.

Asas oscilam em débil céu,
lábeis: o coração transmigra
e eu sou, ermo,

e os dias um escombro.


[de Oboe sumergido (1930-1932). Tradução de Aníbal Beça]

domingo, 17 de julho de 2011

Dionysos e outros poemas breves

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


DIONYSOS

Entre as árvores escuras e caladas
O céu vermelho arde,
E nascido da secreta cor da tarde
Dionysos passa na poeira das estradas.

A abundância dos frutos de Setembro
Habita a sua face e cada membro
Tem essa perfeição vermelha e plena,
Essa glória ardente e serena
Que distinguia os deuses dos mortais.


  

NOITE

Noite de folha em folha murmurada,
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptível em gestos quietos.



AS IMAGENS TRANSBORDAM
  
As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?




GESTO
  
Eu em tudo Te vi amanhecer
Mas nenhuma presença Te cumpriu,
Só me ficou o gesto que subiu
Às mais longínquas fontes do meu ser.



EURYDICE
  
A noite é o seu manto que ela arrasta
Sobre a triste poeira do meu ser
Quando escuto cantar do seu morrer
Em que o meu coração todo se gasta.

Voam no firmamento os seus cabelos
Nas suas mãos a voz do mar ecoa
Usa as estrelas como uma coroa
E atravessa sorrindo os pesadelos.

Veio com ar de alguém que não existe
Falava-me de tudo quanto morre
E devagar no ar quebrou-se triste
De ser aparição água que escorre.



galo galo

[Ferreira Gullar]



                           O galo
                           no salão quieto.

Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.


                           De córneo bico e
                           esporões, armado
                           contra a morte,
                           passeia.


Mede os passos. Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio:


                           — que faço entre coisas ?

                           — de que me defendo ?


Anda.
No saguão.
O cimento esquece
o seu último passo.


                          Galo: as penas que
                          florescem da carne silenciosa
                          e duro bico e as unhas e o olho
                          sem amor. Grave
                          solidez.
                          Em que se apóia
                          tal arquitetura ?


Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora ?
Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório ?


                          Eis que bate as asas, vai
                          morrer, encurva o vertiginoso pescoço
                          donde o canto rubro escoa


Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito.


                          Vê-se: o canto é inútil.


O galo permanece — apesar
de todo o seu porte marcial —
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira!


                          Outro grito cresce
                          agora no sigilo
                          de seu corpo; grito
                          que, sem essas penas
                          e esporões e crista
                          e sobretudo sem esse olhar
                          de ódio,
                          não seria tão rouco
                          e sangrento


Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras. 





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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Romance

Mário Faustino

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhando já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.



O Homem e Sua Hora (1955)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Banho (rural)

[Zila Mamede]




De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.




[in O Arado, 1959]

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Quando a espera é um ritual de lua e sombra

[Alexandre Bonafim]

 

V
 
Quando a noite flutua sobre os sonhos,
de cada latejar dos meus pulsos
nasce a sede de uma gaivota
a buscar o silêncio e os crepúsculos.





[in Arqueologia dos Acasos, 2010]


segunda-feira, 4 de julho de 2011

PLANTIO

01/04/33 - 03/07/11



Cava,

então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,

então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca

e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha

e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,

então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:

e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.
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[in Lavra Lavra, 1962]  

domingo, 3 de julho de 2011

Mulher e Pássaro

[Dora Ferreira da Silva]




Linha invisível
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.




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