terça-feira, 27 de setembro de 2011

Anna Akhmátova (1889 - 1966)




MÚSICA

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
 
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

 

МУЗЫКА           
 
В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.

Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.

1958



[Anna Akhmátova - Poesia 1912 - 1964 - Editora L&PM, 1991 - Seleção, Tradução e Notas de Lauro Machado Coelho.]

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Soneto antigo

[Mário Faustino]

Esse estoque de amor que acumulei
Ninguém veio comprar a preço justo.
Preparei meu castelo para um rei
Que mal me olhou, passando, e a quanto custo.
Meu tesouro amoroso há muito as traças
Comeram, secundadas por ladrões.
A luz abandonou as ondas lassas
De refletir um sol que só se põe
Sozinho. Agora vou por meus infernos
Sem fantasma buscar entre fantasmas.
E marcho contra o vento, sobre eternos
Desertos sem retorno, onde olharás
Mas sem o ver, estrela cega, o rastro
Que até aqui deixei, seguindo um astro.

 







Mário Faustino dos Santos e Silva (Teresina, 22 de outubro de 1930 - Lima, Peru, 27 de novembro de 1962) - Além de poeta foi crítico, tradutor e jornalista. Ficou muito conhecido por seu trabalho de divulgação da poesia no Jornal do Brasil quando assinava o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, na seção Poesia-Experiência. Publicou apenas um livro de poesia, O Homem e sua Hora (1955). Morreu prematuramente vítima de um desastre aéreo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Um poema de Octavio Paz

VIDA ENTREVISTA

Relâmpagos ou peixes
na noite do mar
e pássaros, relâmpagos
na noite do bosque.

Os ossos são relâmpagos
na noite do corpo.
Oh mundo, tudo é noite
e a vida é relâmpago.

[Octavio Paz / Trad. Wanderson Lima]

domingo, 11 de setembro de 2011

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O que é Poesia?


"A poesia é o encontro do leitor com o livro, a descoberta do livro. Há outra experiência estética que é o momento, também muito estranho, em que o poeta concebe a obra, no qual ele vai descobrindo ou inventando a obra. Como se sabe, em latim as palavras "inventar" e "descobrir" são sinônimas. Tudo isso está de acordo com a doutrina platônica quando esta afirma que inventar, que descobrir, é recordar. Francis Bacon acrescenta que, se aprender é recordar, ignorar é saber esquecer; já dispomos de tudo, só nos falta ver."


Jorge Luis Borges, A poesia (1980)
(in Borges oral & sete noite, Companhia das Letras, 2011. p. 165)