quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Homo

[H. Dobal]

Sua ração de vida o homem vê minguando
a cada dia. Mas duro recomeça
como se o tempo lhe sobrasse. E vagaroso
não conta as eras que se extinguem.
Nem conta a solidão dos dias claros
se desdobrando iguais como esquecidos
de mudar. Nem a distância
que o grito não transpõe, a passagem da vida
cumprida só em mínimos desejos.
Sua lástima na piar das nambus, sóbrio
se esquiva às armadilhas da tarde.
A incerteza nos paióis, o chão batido
em que levanta a casa, o amor
como a água das cabaças.
Lavrador do milho e do feijão, sua frugal colheita
em gleba alheia. Passa-lhe a vida,
e queima o céu com a cinza de suas roças.


[in O tempo consequente]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O lago

[Ana Paula Tavares]

Tão manso é o lago dos teus olhos
que temo avançar a mão
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha sede antiga.




[Dizes-me coisas amargas como os frutos, 2001, in Amargos como os frutos, poesia reunida, Rio de Janeiro: Pallas, 2011]

terça-feira, 11 de outubro de 2011

à Flor da Tela





Teclas letras
            digitais
a língua lambe
              metais
nudez digital
à flor
da tela.

Palavras se enlaçam
                        exalam
talos úmidos de pólen
falos de pétalas
            na pele das bocas
nervuras e frestas

letras de púbis-tremor.

Nos olhos as danças
e meus pudicos
diabos em flor.

Mas ao longo da linha
a carne
calada no dorso
do osso se mostra

(pérolas entornam)

e nas coxas da língua
de gozo no dorso
roça na minha
a palavra desforra.




___________________
Susanna Busato, paulistana (1961). Doutora em Letras (UNESP/São José do Rio Preto) e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC/SP). Professora de Poesia Brasileira na UNESP de SJRP. Prêmio Mapa Cultural Paulista, categoria Poesia, em junho de 2010. Tem poemas publicados na Revista Cult, Revista Brasileiros e nas revistas eletrônicas Zunái e Aliás e ensaios na Cronópios e Gérmina e outras revistas acadêmicas. Autora e organizadora dos e-books Fragmentos do Contemporâneo: leituras (2009), e Figurações contemporâneas do espaço na literatura (2010), ambos da Editora Cultura Acadêmica, 2009, pelo selo Editora da UNESP.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Indagações sobre o verso livre [Carlos Felipe Moisés]

[...] Longe de significar idiossincrasia ou imposição arbitrária, as antigas formas fixas, em seu conjunto e em seu espírito genuíno, valem como representação metafórica de um mundo estável. Tais formas já contêm em si uma visão de mundo. O poeta anterior à rebeldia verseja, rima e conta as sílabas, para conferir à sua criação o status simbólico de microuniverso coeso, na medida em que acredita estar inserido em (e integrado a) um universo igualmente ordenado e coeso. O poeta moderno, por sua vez, “condenado” a usufruir da suposta liberdade do versilibrismo, continua a metrificar, e até a rimar, e a escandir e a acentuar, servindo-se basicamente das mesmas células métricas tradicionais (cujo limite é a própria língua), à procura dos mesmos ritmos integradores dos vários estratos de sua fala, já agora em regime de irregularidade, assimetria e imprevisibilidade, para dar representação metafórica a um mundo analogamente irregular e heterogêneo, instável, esvaziado de qualquer valor ou verdade inquestionáveis. A pluralidade das formas já é, em si, figuração de outra visão de mundo.

Leia o texto completo aqui.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Besouro passeia no púbis

[Wanderson Lima]

Teu casco curvilíneo
de negro luminoso;
e duas lâminas em vez
de lábios; e nos olhos
o manso torpor da noite.
Acordar de tua visão!
Apascentar algo mais
que a boa-sombra; flanar
além de exato júbilo:
Ouro, ouro teu breu –
e minha fome, firme
na tarde branca, luz
gaga e manca, sem
vestígios de raízes!
Ouro, ouro teu breu
além de berço, ouro teu
beijo em mar de cinzas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

eu menti

[Virgínia Boechat]



eu menti
não tem algas nessa baía

não há sinal da areia que um dia abri
em arco e nem mesmo há no mundo
boca que seja minha

eu inventei as tardes em que tentei te esquecer
e tua lembrança afogada de mim

amor eu fingi ruas enquanto falávamos
e meia dúzia de meias explicações tuas

eu blefei todas as linhas
que eu tive para te tentar
acreditar em meio a chumbo e matéria
orgânica em decomposição





[in Prelúdio para arco e flecha, Oficina Raquel, 2008]