[João Cabral de Melo Neto]
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
[A educação pela pedra, 1966]
domingo, 24 de junho de 2012
Num monumento à aspirina
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Nel mezzo del camin...
[Olavo Bilac]
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
"não quero mais de um poeta"
[Ricardo Silvestrin]
não quero mais de um poeta
que a sua letra
palavra presa na página
borboleta
nem quero saber da sua vida
da verdade que nunca foi dita
mesmo por ele
que tudo que viveu duvida
não revirem a sua cova
o seu arquivo
é no seu livro que o poeta está enterrado
vivo
[Palavra mágica. Porto Alegre: Massao Ohno, 1994]que a sua letra
palavra presa na página
borboleta
nem quero saber da sua vida
da verdade que nunca foi dita
mesmo por ele
que tudo que viveu duvida
não revirem a sua cova
o seu arquivo
é no seu livro que o poeta está enterrado
vivo
segunda-feira, 4 de junho de 2012
SILVIA SAINT
[Alexei Bueno]
Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.
Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?
Sêmen geral, das turbas
Em teu suor diluído,
No sorriso vendido
Com que os mortos perturbas.
Exatidão vivente,
A luz pisa em teus passos,
Nos teus cílios devassos,
No olhar que arde e consente.
Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta,
Deusa auto-entregue à escória.
Deusa, deusa mil vezes,
Deusa de uma e mil faces,
Das rameiras rapaces,
Das cortesãs soezes.
Da Assíria e de Corinto,
De Suburra e Pompéia,
Em ti toda a alcatéia
Uiva o olvidar do instinto.
Deusa mordível, puta
Vinda a sorrir do Letes,
Talvez um dia aquietes
Tua carne alva e corrupta?
Jamais, deusa, não traias
Teus pobres fiéis que babam,
Que em êxtases se acabam
Por ti, pelas tuas aias.
Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso.
Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.
Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?
Sêmen geral, das turbas
Em teu suor diluído,
No sorriso vendido
Com que os mortos perturbas.
Exatidão vivente,
A luz pisa em teus passos,
Nos teus cílios devassos,
No olhar que arde e consente.
Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta,
Deusa auto-entregue à escória.
Deusa, deusa mil vezes,
Deusa de uma e mil faces,
Das rameiras rapaces,
Das cortesãs soezes.
Da Assíria e de Corinto,
De Suburra e Pompéia,
Em ti toda a alcatéia
Uiva o olvidar do instinto.
Deusa mordível, puta
Vinda a sorrir do Letes,
Talvez um dia aquietes
Tua carne alva e corrupta?
Jamais, deusa, não traias
Teus pobres fiéis que babam,
Que em êxtases se acabam
Por ti, pelas tuas aias.
Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Ausência
[Vinicius de Moraes]
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar
[os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
[de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
[e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho
[nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás
[para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
[porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite
[e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
[suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência
[do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu,
[das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
[MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA.]
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar
[os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
[de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
[e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho
[nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás
[para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
[porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite
[e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
[suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência
[do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu,
[das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
[MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA.]
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