quarta-feira, 29 de junho de 2011

2 poemas de Abbas Kiarostami


Duas trutas

uma ao lado da outra

no branco leito do prato.


*


Um riacho que escorre

de Pivelar alta

a Pivelar baixa,

há anos

seus habitantes estão em luta.


[Abbas Kiarostami]

terça-feira, 28 de junho de 2011

Guitarra

Cecília Meireles

Punhal de prata já eras,
punhal de prata!
Nem foste tu que fizeste
a minha mão insensata.

Vi-te brilhar entre as pedras,
punhal de prata!
— no cabo, flores abertas,
no gume, a medida exata,

a exata, a medida certa,
punhal de prata,
para atravessar-me o peito
com uma letra e uma data.

A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
não é de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata.
 


Viagem (1939)

Haicais de Kobayashi Issa


Nos olhos da libélula

Refletem-se

Montanhas distantes.

*

Apenas estando aqui,

Estou aqui.

E a neve cai.

*

Vento de outono –

Um mendigo me olha

E faz comparações.

*

Crisântemos florescem

Junto ao monte de estrume:

Uma só paisagem.

*

Cerejeiras do anoitecer –

Hoje também

Já é outrora.

*

Bando de moscas –

Que gosto pode haver

Nestas mãos enrugadas?

*

A lua da montanha

Gentilmente ilumina

O ladrão de flores.

*

Vou sair –

Divirtam-se fazendo amor,

Moscas da minha casa!


[Trad. Elza Taeko Doi e Paulo Franchetti]

Nota biográfica sobre Issa aqui.



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Mulher e Pássaro




Voltamos ao jardim
ao banco lavado pela chuva.
Pedimos o verde ao verde
a flor à flor
sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã.
(Nossa presença
desalinha ar e folhas
num frêmito.)

Mas se nada pedimos
como quem dorme seguindo a linha natural
do corpo
respiramos o puro abandono:
um pássaro alveja o azul (sem par)
ultrapassa o muro do possível
e assim damos um ao outro
a súbita presença
do Céu.





[in Talhamar (1982)]

domingo, 26 de junho de 2011

Depreciação

[Donizete Galvão]



De hoje em diante
não irás ganhar o pão
com o suor de teu rosto.
Não precisarás mais de rosto.
Nem de suor.
Nem de um corpo.
De hoje em diante
a máquina imperfeita
de teus músculos
será mais um objeto
em desuso.




Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em 1955. Autor de Azul Navalha (1988), As Faces do Rio (1991), Do Silêncio da Pedra (1996) e A Carne e o Tempo (1997), Ruminações (1999), todos de poesia.
 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

2 poemas de Nauro Machado


A SENTENÇA


Ó solidão, minha mãe
em toda parte do corpo,
meu escaler sem esperança
no oceano dos naufrágios.

Só as árvores estão vivas
no meu espírito que é morto.
Ó sinos, pombas errantes
no bronze da eternidade!

Remai, tempo de amargura,
às praias sem amanhã.
Ó solidão, minha mãe,
medusa erguida sem pai.

*

SONETO 91


Por que me bates com teus sinos, plágios
de uma humana cruz, calvário torto,
tu, coração vazio de apanágios,
sem esperança de nenhum conforto?
(Meu coração é gaveta de naufrágios,
de esperanças puídas no alto porto,
onde singro, sagrando em meus sufrágios
de vertigens, um mar que é natimorto.)
Porque me falas e escrutar não posso
teu nome, grito que laboro e roço
na plantação maldita que me bate,
pudesse eu, pária do meu próprio mundo,
arrancar de mim teu ser, qual imundo
dente, coração, à ponta de alicate!


[Nauro Machado]

CHUVA


A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.

Cada uma de suas formas tem um andamento particular; a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto casual, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.

O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.

Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.


[Trad: Júlio Castañon Guimarães]

Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia

[Gregório de Matos]

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
 
Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.