domingo, 29 de janeiro de 2012

Poema 23, Invitación al Polvo


[Manuel Ramos Otero]


Éramos flores desterradas desde un Caribe ancho
y luminoso a un apartamento nocturno y estrecho.
Éramos un recuerdo distinto y similar de voces
amorosas que quedaron atrás encerradas en el
mar, jugando al escondite por bosques milenarios y
volcanes dormidos. Éramos todo eso y mucho más:
el eco de un espíritu sincero que cambió brisa
por humo, fuego de sol por ceniza, gente de carne
y hueso por máscaras anónimas, hombres de la
ciudad que en el amor volvieron a sus islas infinitas.
Cubanacán boricua y Borikén cubano, finalmente
abrazados, con las alas cortadas falsificando
vuelos, como cambiando pétalos por plumas.
Éramos boleristas de la misma loseta: vereda
tropical y niebla de riachuelo, un desvelo de amor
bajo Venus, olas y arenas de una nave sin rumbo,
besos de fuego para una canción desesperada,
yo era una flor y tú mi propio yo. Con lágrimas
de sangre quise escribir la historia que ahora escribo
con sangre, con tinta sangre, del corazón. Éramos
compañeros del desorden profundo, pasión de
vellonera hombres por fuera y por dentro, no
solamente cuerpos sino historia. Éramos la victoria
de amarnos sin prejuicios, sin posesión ni celos,
sabiendo que lo eterno dura un segundo. Éramos los
remeros de la misma galera en busca de esa isla que
al final los libera. Éramos mucho menos
de lo que ahora somos. 

Soneto

[Alberto da Costa e Silva]




Alto me sonho, mas sou apenas homem:
alguns dias, a infância desterrada
em outro ser (e o ar que as mãos agarram
se vai movendo em nós, respiro fraco

com que me gasto, calmo, rês, mudado
no tempo em que me faço e me desfaço,
humilde, cego, em lágrimas sangrado,
passagem de luar, bicho deserto)

que sente, alguma vez, a despenhar-se
o espaço nas coisas, grande, alado,
ou sobre mim, em mim, no ser atado

à vida, à terra, a este adeus cortado,
e vê o mundo a reerger-se, aberto,
no refino da espera de um abraço.


[in Poemas reunidos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira : FBN, 2000. p.89]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

no tropel do carrossel

[Diogo Fontenelle]


Os cavalinhos do carrossel,
Presos por fios de ouro,
Descem ao mar e sobem ao céu
Carregando os meninos louros
Vestidos de helenos
E os meninos morenos
Vestidos de mouros.


[In Baião de Todos, Teresina: Corisco, s/d. p52]


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Antigamente

[Fernando Paixão]


Nas guerras de antigamente
os rios seguiam as batalhas
com o seu bordão triste.
Soldados feridos e curvados
vinham morrer na quietude
das margens acolhedoras.
O correr das águas acompanhava
o derradeiro baque. Havia
o encontro heroico do sangue
com o nascer da lua no horizonte.
Cada guerreiro valia por um mito
sugerido nas linhas do céu.
O embalar do rio lhe servia de manto
(ah, os ossos entregues ao chão)
nas guerras de antigamente.


[in Poeira, Editora 34, 2001]

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Vasko Popa

Musgo

Sonho amarelo da ausência
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda

Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores

Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela.

[Vasko Popa (1922-1991) em tradução de Aleksandar Jovanovic]

domingo, 1 de janeiro de 2012

Versículos de Salomão

[Martins Napoleão]

 

Eu pensava nas coisas eternas:
na essência da verdade e da beleza.

Eu pensava nas coisas eternas,
quando ofereceste a boca matinal
à sede do meu beijo.

(Como posso, Senhor; recusar, sem soberba,
o fruto macio e orvalhado
que a árvore dadivosa atirou aos meus pés?...)


[in Caminhos da Vida e da Morte, 1941]




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Benedito Martins Napoleão do Rego nasceu em União-PI, 1903. Professor, poeta, jornalista e tradutor. Presidiu a Academia Piauiense de Letras. O Cancioneiro Geral, 1981, reúne sua obra poética, composta, entre outros, por Copa de Ébano, 1927; Poemas da Terra Selvagem, 1940; Caminho da Vida e da Morte, 1941 e Prisioneiro do Mundo, 1953. Faleceu no Rio de Janeiro em 1981.