sábado, 1 de outubro de 2016

Carlos Drummond de Andrade & Adélia Prado



Cidadezinha qualquer
[Carlos Drummond de Andrade]

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.


[Alguma poesia. In: Nova Reunião. Volume 1. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2009, pág. 31]

  

Bucólica nostalgia
[Adélia Prado]
  
Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem 
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!


[Bagagem. In: Poesia reunida. Rio de Janeiro: Record, 2015, pág. 37] 

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