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domingo, 20 de novembro de 2011

Ruminações

[Donizete Galvão]
À maneira de Enrique Lihn



Nunca saí dessa roceira Minas
que nos dá aflição e dor como herança.
Lamaçal de bosta de vaca
no curral bem em frente da casa.
Cheiro de leite azedo nos latões
e de óleo queimado para expulsar bernes.
Jardins de dália e corações magoados,
chás de consolda e escaldados de quirera.
A avó socando o arroz no pilão,
preparando decoada para o sabão
ou com rodilhas para o feixe de lenha.
Compras sem um item supérfluo
anotadas nas cadernetas de armazém.
Terras tomadas por sapé e sorocaba
e vendias para pagar promissórias.
Vidas acanhadas atrás de janelas
na cidade que não definha nem prospera.
Rancores cultivados durante anos,
as mesquinharias de parentes.
Amor ressabiado, apenas sugerido,
abraços sem calor, corpos com arestas.
Podem dar-me asas, cheques de viagem,
mandar-me para velejar em Bizâncio.
Recolho, rumino e regurgito
a aspereza daqueles dias.
Rejeito sua rica hospedagem.
Sou um estranho em suas festas.
Nunca saí desse círculo de ferro.
Nunca saí dessa Minas que não termina.



[in Ruminações, São Paulo: Nankin, 1999]

domingo, 26 de junho de 2011

Depreciação

[Donizete Galvão]



De hoje em diante
não irás ganhar o pão
com o suor de teu rosto.
Não precisarás mais de rosto.
Nem de suor.
Nem de um corpo.
De hoje em diante
a máquina imperfeita
de teus músculos
será mais um objeto
em desuso.




Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em 1955. Autor de Azul Navalha (1988), As Faces do Rio (1991), Do Silêncio da Pedra (1996) e A Carne e o Tempo (1997), Ruminações (1999), todos de poesia.