sexta-feira, 13 de julho de 2012
As Pragas
Porque não estive às portas de Madri,
de onde escuto, ainda, o “no pasarán”.
Te abjuro, Senhor, enfim, e a Ti,
a quem, outrora, chamei de pai e bom.
Porque não estive às portas de Madri,
lutando, às claras, com porcos-burgueses,
luto e lutarei, em trevas, por aqui,
Te abjurando, Pai, por milhões de vezes.
Entanto, saibam-no todos, e ouvi
que aos homens-bestas, com meus punhos, sorvo-os
enquanto, ao longe, às portas de Madri,
se erguer, incólume, o sangue dos povos!
[Décimo Divisor Comum, 1972]
sexta-feira, 24 de junho de 2011
2 poemas de Nauro Machado
A SENTENÇA
Ó solidão, minha mãe
em toda parte do corpo,
meu escaler sem esperança
no oceano dos naufrágios.
Só as árvores estão vivas
no meu espírito que é morto.
Ó sinos, pombas errantes
no bronze da eternidade!
Remai, tempo de amargura,
às praias sem amanhã.
Ó solidão, minha mãe,
medusa erguida sem pai.
*
SONETO 91
Por que me bates com teus sinos, plágios
de uma humana cruz, calvário torto,
tu, coração vazio de apanágios,
sem esperança de nenhum conforto?
(Meu coração é gaveta de naufrágios,
de esperanças puídas no alto porto,
onde singro, sagrando em meus sufrágios
de vertigens, um mar que é natimorto.)
Porque me falas e escrutar não posso
teu nome, grito que laboro e roço
na plantação maldita que me bate,
pudesse eu, pária do meu próprio mundo,
arrancar de mim teu ser, qual imundo
dente, coração, à ponta de alicate!