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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Manuel Bandeira & João Cabral de Melo Neto

O último poema
[Manuel Bandeira]

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples 
                                                [e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes 
                                                                        [mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosac Naify, 2006, pág. 35]

  
O último poema
[João Cabral de Melo Neto]
  
Não sei quem me manda a poesia
nem se Quem disso a chamaria.

Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),

seja mulher, paisagem ou o não
de que há preencher os vãos,

fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,

ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema

mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.


[Agrestes, in: A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, págs 252-253] 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Manuel Bandeira & Carlos Drummond de Andrade

A estrada
[Manuel Bandeira]

Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual. Todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um
bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz
dos símbolos,
Que a vida passa! Que a vida passa!
E a mocidade vai acabar.
 


Petrópolis, 1921

[In: O Ritmo Dissoluto, 1924]




Cidadezinha qualquer 
[Carlos Drummond de Andrade]

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

 


[In: Alguma poesia, 1930]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Mario Quintana & Manuel Bandeira

 
Souvenir d’enfance
[Mario Quintana]
 
Minha primeira namorada me escutava com um ar 

                                                          [de cachorrinho Victor:
Todas aquelas minhas grandes mentirinhas 

                                                     [eram verdades para ela...
Para mim também! 



[QUINTANA, Mario. Nova antologia poética. 12. Ed. São Paulo: Globo, 2007, p. 171.]





Porquinho-da-Índia
[Manuel Bandeira]
 
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .


— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.



[Libertinagem]