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sábado, 8 de setembro de 2012

a noite em que no sul o velaram

[Jorge Luis Borges]
Traduzido por Wanderson Lima



Pela descida de alguém
– mistério cujo vacante nome possuo e cuja realidade não abarcamos –
até a aurora há uma casa aberta no Sul,
uma ignorada casa que não estou destinado a rever,
mas que me espera esta noite
com desvelada luz nas altas horas do sono,
carcomida por noites más, distinta,
minuciosa de realidade.

Para sua vigília gravitando em morte caminho
por ruas elementares como lembranças,
pelo tempo abundante de noite,
sem mais vida audível
que os folgados do bairro junto ao armazém apagado
e algum assovio solitário no mundo.

Lento o andar, na posse da espera,
chego à quadra e à casa e à sincera porta que busco
e me recebem homens constrangidos à gravidade
que viveram nos anos de meus antepassados,
e nivelamos destinos no aposento provido que mira o pátio
– pátio que está sob o poder e na integridade da noite –
e dizemos, porque a realidade é maior, coisas indiferentes
e somos apáticos e argentinos no espelho
e o mate compartilhado mede horas vãs.

Comovem-me as pequenas sabedorias
que em todo falecimento se perdem
– hábito de alguns livros, de uma chave, de um corpo entre outros.
Eu sei que todo privilégio, ainda que obscuro, é da linhagem do milagre
e é muito o de participar nesta vigília,
reunido ao redor do que não se sabe: do Morto,
reunida para acompanhar e guardar sua primeira noite na morte.

(O velório gasta os rostos;
nossos olhos estão morrendo no alto como Jesus).
E o morto, o incrível?
Sua realidade está sob as flores diferentes dele
e sua mortal hospitalidade nos dará
uma lembrança mais para o tempo
e sentenciosas ruas do Sul para merecê-las lentamente
e brisa obscura sobre a fronte que se volta
e a noite que da maior aflição nos livra:
a prolixidade do real.





 


[In: Cuarderno San Martin. Obras Completas. Buenos Aires: Emecé, 1974, p. 88-89]

domingo, 12 de fevereiro de 2012

um lobo

[Jorge Luis Borges]


Furtivo e cinza na penumbra última,
vai deixando seus rastros pela margem
daquele rio sem nome que saciou
a sede de sua goela e cujas águas
não repetem estrelas. Esta noite,
o lobo é uma sombra que está só
e que busca uma fêmea e sente frio.
É o último lobo da Inglaterra.
Sabem-no Odin e Thor. Em sua alta
casa de pedra um rei determinou
que acabassem com os lobos. Já forjado
está o forte ferro de tua morte.
Lobo saxônico, engendraste em vão.
Não basta ser cruel. Tu és o último.
A mil anos daqui um homem velho
te sonhará na América. De nada
há de servir-te esse futuro sonho.
Hoje te cercam os homens que seguiram
floresta afora os ratros que deixaste,
furtivo e cinza na penumbra última.



Tradução de Heloisa Jahn
[in Atlas, São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p.21]


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

meus livros

[Jorge Luis Borges]

Meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes grises e de grises olhos
Que inutilmente busco nos cristais
E que com a mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Vão me dizer para sempre.


[A Rosa Profunda, 1975. In Poesia, tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p191]

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O que é Poesia?


"A poesia é o encontro do leitor com o livro, a descoberta do livro. Há outra experiência estética que é o momento, também muito estranho, em que o poeta concebe a obra, no qual ele vai descobrindo ou inventando a obra. Como se sabe, em latim as palavras "inventar" e "descobrir" são sinônimas. Tudo isso está de acordo com a doutrina platônica quando esta afirma que inventar, que descobrir, é recordar. Francis Bacon acrescenta que, se aprender é recordar, ignorar é saber esquecer; já dispomos de tudo, só nos falta ver."


Jorge Luis Borges, A poesia (1980)
(in Borges oral & sete noite, Companhia das Letras, 2011. p. 165)