sábado, 10 de novembro de 2012
Philip Larkin
Adriano, aqui o poema de Philip Larkin que falei. É um dos mais conhecidos dele mas longe de ser o melhor. Eu devia tentar traduzir né? Mas não.
Annus Mirabilis
Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) -
Between the end of the "Chatterley" banAnd the Beatles' first LP.
Up to then there'd only been
A sort of bargaining,
A wrangle for the ring,
A shame that started at sixteen
And spread to everything.
Then all at once the quarrel sank:
Everyone felt the same,
And every life became
A brilliant breaking of the bank,
A quite unlosable game.
So life was never better than
In nineteen sixty-three
(Though just too late for me) -
Between the end of the "Chatterley" ban
And the Beatles' first LP.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Legado
sábado, 20 de outubro de 2012
Oficina irritada
1 - Sinto muito, Carlos, mas você não conseguiu escrever um "soneto duro ... difícil de ler", que não depertasse "em ninguém nenhum prazer." Esse é o problema de quem foi condenado a ser Poeta na exata [talvez única] acepção do termo o tempo inteiro, mesmo que resolva tentar destruir a própria oficina, ou ser destruído por ela. Deve ser muito difícil para você, Carlos, conseguir escrever um poema "seco, abafado", etc., etc., etc.
2 - "Cão mijando no caos...", que verso!
2 - "Cão mijando no caos...", que verso!
Oficina irritada
[Carlos Drummond de Andrade]
Eu quero escrever um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.
Quero que o meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.
Este meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.
Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.
[in Claro Enigma]
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
A palavra seda
[João Cabral de Melo Neto]
A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza,
A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza,
que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.
[Quaderna, 1956-1959]
Fonte: http://www.academia.org.br/
persiste na coisa seda.
[Quaderna, 1956-1959]
Fonte: http://www.academia.org.br/
Padrão
[Fernando Pessoa]
O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
[in: Mensagem]
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Eu apresento a página branca.
Contra:
Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.
Eu apresento a página branca.
A árvore sem sementes.
O vidro sem nada na frente.
Contra a água.
Arnaldo Antunes
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.
Eu apresento a página branca.
A árvore sem sementes.
O vidro sem nada na frente.
Contra a água.
Arnaldo Antunes
domingo, 30 de setembro de 2012
4° motivo da rosa
[Cecília Meireles]
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando em mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
[in Mar absoluto/Retrato natural]
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando em mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
[in Mar absoluto/Retrato natural]
terça-feira, 25 de setembro de 2012
O emigrante
[Murilo Mendes]
A nuvem andante acolhe o pássaro
Que saiu da estátua de pedra.
Sou aquela nuvem andante,
O pássaro e a estátua de pedra.
Recapitulei os fantasmas,
Corri de deserto em deserto,
Me expulsam da sombra do avião.
Tenho sede generosa,
Nenhuma fonte me basta.
Amigo! Irmão! Vou te levar
O trigo das terras do Egito,
Até o trigo que não tenho.
Egito! Egito! Amontoei
Para dar um dia a outrem:
A sombra fértil de Deus
Não me larga um só instante.
Levai-me o astro da febre:
Eu vos deixo minha sede,
Nada mais tenho de meu.
[in As Metamorfoses]
A Henri Michaux
A nuvem andante acolhe o pássaro
Que saiu da estátua de pedra.
Sou aquela nuvem andante,
O pássaro e a estátua de pedra.
Recapitulei os fantasmas,
Corri de deserto em deserto,
Me expulsam da sombra do avião.
Tenho sede generosa,
Nenhuma fonte me basta.
Amigo! Irmão! Vou te levar
O trigo das terras do Egito,
Até o trigo que não tenho.
Egito! Egito! Amontoei
Para dar um dia a outrem:
A sombra fértil de Deus
Não me larga um só instante.
Levai-me o astro da febre:
Eu vos deixo minha sede,
Nada mais tenho de meu.
[in As Metamorfoses]
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Elegiazinha
Esse é do Nelson Ascher. Até agora, gostei de todos os que li dele mas não foram muitos por que não estão na rede. O que ele quer, que eu compre o livro?
ELEGIAZINHA
[Nelson Ascher]
[i. m. nikita (gata da Inês)]
Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.
Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.
Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.
Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.
Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
[A penúria da língua é a sua força.]
[Fernando Echevarría]
A penúria da língua é a sua força.
Reconhecendo nela a indigência
mais o apuro se empolga
e a submissão empolga a subtileza
do espírito, dado à obra
e a mais nada que não seja ela.
De aí que se desenvolva
uma abertura hiante de surpresa
que pede língua cada vez mais nova
e de mais adequada obediência.
Ou, se quiserem, língua peremptória.
Porque, vinda do fundo da pobreza,
entrega apenas quanto falta. E torna
a sua falta uma abertura imensa,
indigitando o extremamente fora,
cuja ausência feliz se nos entrega.
[in Um lugar de Estudo]
A penúria da língua é a sua força.
Reconhecendo nela a indigência
mais o apuro se empolga
e a submissão empolga a subtileza
do espírito, dado à obra
e a mais nada que não seja ela.
De aí que se desenvolva
uma abertura hiante de surpresa
que pede língua cada vez mais nova
e de mais adequada obediência.
Ou, se quiserem, língua peremptória.
Porque, vinda do fundo da pobreza,
entrega apenas quanto falta. E torna
a sua falta uma abertura imensa,
indigitando o extremamente fora,
cuja ausência feliz se nos entrega.
[in Um lugar de Estudo]
sábado, 8 de setembro de 2012
a noite em que no sul o velaram
[Jorge Luis Borges]
Traduzido por Wanderson Lima
Pela descida de alguém
– mistério cujo vacante nome possuo e cuja realidade não abarcamos –
até a aurora há uma casa aberta no Sul,
uma ignorada casa que não estou destinado a rever,
mas que me espera esta noite
com desvelada luz nas altas horas do sono,
carcomida por noites más, distinta,
minuciosa de realidade.
Para sua vigília gravitando em morte caminho
por ruas elementares como lembranças,
pelo tempo abundante de noite,
sem mais vida audível
que os folgados do bairro junto ao armazém apagado
e algum assovio solitário no mundo.
Lento o andar, na posse da espera,
chego à quadra e à casa e à sincera porta que busco
e me recebem homens constrangidos à gravidade
que viveram nos anos de meus antepassados,
e nivelamos destinos no aposento provido que mira o pátio
– pátio que está sob o poder e na integridade da noite –
e dizemos, porque a realidade é maior, coisas indiferentes
e somos apáticos e argentinos no espelho
e o mate compartilhado mede horas vãs.
Comovem-me as pequenas sabedorias
que em todo falecimento se perdem
– hábito de alguns livros, de uma chave, de um corpo entre outros.
Eu sei que todo privilégio, ainda que obscuro, é da linhagem do milagre
e é muito o de participar nesta vigília,
reunido ao redor do que não se sabe: do Morto,
reunida para acompanhar e guardar sua primeira noite na morte.
(O velório gasta os rostos;
nossos olhos estão morrendo no alto como Jesus).
E o morto, o incrível?
Sua realidade está sob as flores diferentes dele
e sua mortal hospitalidade nos dará
uma lembrança mais para o tempo
e sentenciosas ruas do Sul para merecê-las lentamente
e brisa obscura sobre a fronte que se volta
e a noite que da maior aflição nos livra:
a prolixidade do real.
[In: Cuarderno San Martin. Obras Completas. Buenos Aires: Emecé, 1974, p. 88-89]
Traduzido por Wanderson Lima
Pela descida de alguém
– mistério cujo vacante nome possuo e cuja realidade não abarcamos –
até a aurora há uma casa aberta no Sul,
uma ignorada casa que não estou destinado a rever,
mas que me espera esta noite
com desvelada luz nas altas horas do sono,
carcomida por noites más, distinta,
minuciosa de realidade.
Para sua vigília gravitando em morte caminho
por ruas elementares como lembranças,
pelo tempo abundante de noite,
sem mais vida audível
que os folgados do bairro junto ao armazém apagado
e algum assovio solitário no mundo.
Lento o andar, na posse da espera,
chego à quadra e à casa e à sincera porta que busco
e me recebem homens constrangidos à gravidade
que viveram nos anos de meus antepassados,
e nivelamos destinos no aposento provido que mira o pátio
– pátio que está sob o poder e na integridade da noite –
e dizemos, porque a realidade é maior, coisas indiferentes
e somos apáticos e argentinos no espelho
e o mate compartilhado mede horas vãs.
Comovem-me as pequenas sabedorias
que em todo falecimento se perdem
– hábito de alguns livros, de uma chave, de um corpo entre outros.
Eu sei que todo privilégio, ainda que obscuro, é da linhagem do milagre
e é muito o de participar nesta vigília,
reunido ao redor do que não se sabe: do Morto,
reunida para acompanhar e guardar sua primeira noite na morte.
(O velório gasta os rostos;
nossos olhos estão morrendo no alto como Jesus).
E o morto, o incrível?
Sua realidade está sob as flores diferentes dele
e sua mortal hospitalidade nos dará
uma lembrança mais para o tempo
e sentenciosas ruas do Sul para merecê-las lentamente
e brisa obscura sobre a fronte que se volta
e a noite que da maior aflição nos livra:
a prolixidade do real.
[In: Cuarderno San Martin. Obras Completas. Buenos Aires: Emecé, 1974, p. 88-89]
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
ode às batatas fritas
[Pablo Neruda]
Crepita
no azeite
fervendo
a alegria
do mundo:
as batatas
fritas
entram
na frigideira
como nevadas
plumas
de cisne matutino
e saem
semidouradas pelo crepitante
âmbar das olivas.
O alho
lhes acrescenta
sua terrena frangrância,
a pimenta,
pólen que atravessou os recifes,
e
revestidas
de novo
com traje de marfim, enchem o prato
com a repetição de sua abundância
e sua saborosa simplicidade da terra.
[NERUDA, Pablo. Navegações e Regressos. São Paulo: MEDIAfashion, 2012, p.129-130]
Crepita
no azeite
fervendo
a alegria
do mundo:
as batatas
fritas
entram
na frigideira
como nevadas
plumas
de cisne matutino
e saem
semidouradas pelo crepitante
âmbar das olivas.
O alho
lhes acrescenta
sua terrena frangrância,
a pimenta,
pólen que atravessou os recifes,
e
revestidas
de novo
com traje de marfim, enchem o prato
com a repetição de sua abundância
e sua saborosa simplicidade da terra.
[NERUDA, Pablo. Navegações e Regressos. São Paulo: MEDIAfashion, 2012, p.129-130]
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Ego de Mona Kateudo
[Mário Faustino]
1930-1962Dor, dor de minha alma, é madrugada
E aportam-me lembranças de quem amo.
E dobram sonhos na mal-estrelada
Memória arfante donde alguém que chamo
Para outros braços cardiais me nega
Restos de rosa entre lençóis de olvido.
Ao longe ladra um coração na cega
Noite ambulante. E escuto-te o mugido,
Oh vento que meu cérebro aleitaste,
Tempo que meu destino ruminaste.
Amor, amor, enquanto luzes, puro,
Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,
Ouvindo as asas roucas de outro dia
Cantar sem despertar minha alegria.
[O homem e sua hora, 1955]
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Cabem muitos amores
[Martins Napoleão]
1903-1981
Em cada coração cabem muitos amores,
como todas as cores cabem em nossos olhos
e todos os sons em nossos ouvidos.
Para nós, uma cor e um som apenas
não seriam, com certeza, a vida
mas a monotonia melancólica da eternidade.
como todas as cores cabem em nossos olhos
e todos os sons em nossos ouvidos.
Para nós, uma cor e um som apenas
não seriam, com certeza, a vida
mas a monotonia melancólica da eternidade.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
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